Dos Parques Infantis à Cidade

Hoje os Parques, ou playgrounds, são os principais espaços destinados ao público infantil. Parques temáticos, parques a pagamento, parques de última tecnologia, parques descontextualizados que tentam imitar modelos que deram certo no exterior, parques sem identidade e com brinquedos-padrão produzidos em série. Será que os parques são mesmo tão bons para a criança?
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Os especialistas dizem que não. Já lá nos anos 60, um senhor chamado Colin Ward, arquiteto e urbanista, afirmava que os playgrounds não são os melhores espaços para as crianças e não só pelos motivos citados acima, mas principalmente porque SEPARAM a criança do resto da cidade – quando a criança deveria ser acolhida pelos espaços da cidade, para ir sendo integrada no território onde vive.
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É desde a infância que começamos a nos sentir isolados da cidade e das pessoas. Isolamento social é não sentir-se nunca parte de um lugar, não reconhecer-se nele, não sentir vontade de cuidar dele e sentir muita dificuldade em resolver as próprias necessidades diárias (de se locomover, buscar um serviço, integrar à comunidade de vizinhos, sentir-se seguro onde mora).
Os espaços infantis, por melhor que sejam, limitam a participação da criança num contexto mais amplo e real, onde há diferentes tipos de pessoas e de atividades sendo realizadas ao mesmo tempo. Porém, não se pode dizer que os espaços mais vividos pelas crianças, hoje, sejam os parques infantil mas, sim, o ambiente doméstico e escolar. Com o aumento da violência e do uso de carros, a infância passou a ser afastada das ruas para crescer e se desenvolver na segurança da casa e da sala de aula.
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As crianças estão entre os grupos sociais mais excluídos da sociedade, pelo fato de NÃO poderem desfrutar de grande parte dos direitos cidadãos. Isso quer dizer que, na prática, elas têm menos direitos de usar a cidade e os seus recursos, se comparado aos jovens e adultos. Isso não é uma questão exclusiva do Brasil, mas de todos os lugares.
São raros os lugares onde as crianças ainda podem ir sozinhas, caminhando, de um lugar a outro, brincar ao ar livre, participar do entorno (rua, bairro) onde vive.
Antigamente, num passado nem tão distante, essa história era diferente e as crianças cresciam brincando nas ruas, numa relação mais próxima com o bairro onde moravam e as pessoas que ali viviam e o frequentavam.
Portanto, muitos arquitetos, urbanistas e pedagogos defendem que o ideal não é construir mais espaços infantis mas, sim, ensinar a sociedade a aceitar e acolher a criança em mais espaços, nos lugares comuns do cotidiano (como dizia Jane Jacobs), permitir que os pequenos usem os mesmos espaços que os jovens, adultos e idosos e outros grupos sociais.
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Buscar soluções que permitam o uso de pessoas de diferentes idades, classes sociais, sexos, a fim de manter estes lugares sempre vivos e em uso durante a maior parte do dia e permitir que o espírito coletivo local possa ir aos poucos se reacendendo.
O mesmo princípio vale para o público infantil.
Que as crianças possam participar mais de perto da nossa sociedade (e cidade).

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