A importância de se usar aquilo que é nosso: as coisas e os lugares

Nunca antes existiram tantos objetos como hoje. Nos acostumamos a comprar e armazenar uma quantidade muito grande de itens dentro das nossas casas mas, de fato, quantos usamos ao longo das nossas vidas?
Hoje em dia há uma tendência maior de acumular coisas do que de realmente usar essas coisas. Acreditamos (e me incluo) que possuir muitas coisas vai nos ajudar mas, no fim, acabamos usando sempre os mesmos objetos no nosso dia-a-dia. Mas e aí, isso é ruim? Bom, há coisas piores… mas há muitos pontos negativos nessa dinâmica: gastamos muito dinheiro com coisas desnecessárias em vez de empregá-lo em algo útil para a gente, necessitamos de muito espaço para poder armazenar todas essas coisas e também acabamos sem compreender quantas coisas temos de verdade e se elas funcionam pra nós. No final, podemos cair em uma dessas dinâmicas: temos coisas que não precisamos, precisamos de coisas que não temos, temos coisas que precisamos mas que não usamos.

Por mais que sejam coisas, criadas para nós, para nos auxiliar, muitos objetos são supervalorizados e perdemos essa conexão natural com estes, ou seja, não conseguimos nos apropriar, sentir que é nosso. É aí que entra a minha segunda reflexão: sobre a paisagem, no caso, uma parte específica da paisagem urbana, conhecida como espaço público.
A mesma dificuldade de apropriação pode ser percebida em relação às pessoas com o espaço público: há pouco uso. Mas como assim, se tem gente na rua todos os dias? Sim, há gente na rua passando (de um lado ao outro) e poucos realmente permanecendo ali. Hoje as ruas são muito mais usadas para se chegar a algum lugar do que para simplesmente sentar, desfrutar, socializar como se fazia um dia do espaço de uma praça ou de um banco na calçada. Passamos mas não paramos e, assim, sempre menos temos o sentimento de que também é nosso, de que fazemos parte daquele espaço, de que podemos realmente usar.

Potenza, Itália

Se já há dificuldade em usar e nos apropriarmos de um objeto que compramos e é nosso, imagina quando isso se aplica a algo maior, como um espaço e o território, onde muitas vezes não está claro o direito de uso. Podem se repetir as mesmas questões: temos espaços que não precisamos, precisamos de espaços que não temos, temos espaços que precisamos mas que não usamos.
Este discurso pode parecer querer dar a culpa aos cidadãos (pessoas que vivem nas cidades) ou aos usuários (pessoas que usam os produtos) mas não é essa a intenção. Há grandes razões pelas quais nos comportamos assim com as coisas e os lugares: fomos educados a agir dessa maneira; nada disso foi e é por acaso. Muitas das limitações e dificuldades dos cidadãos de hoje, como a dificuldade de se apropriar de algo, são baseadas em teorias de segregação, alienação, fragmentação e dispersão (entre muitas outras que trataremos uma outra postagem).
Apropriação, embora seja uma palavra que a gente não usa todos os dias, trata de algo simples, significa, segundo o dicionário online Michaelis* o “Ato de tornar algo adaptado ou adequado a um fim ou uso; adaptação, adequação”, ou seja, de sentir que as coisas são mais nossas e conseguir usar elas de modo que seja mais útil pra a gente. A dificuldade de apropriação das coisas e dos espaços colocam as pessoas, que deveriam ter uma importância muito maior do que as coisas e os espaços, em segundo plano e nos acostumamos à ideia de que isso é normal. No caso dos produtos, enfrentamos um grande problema por causa da alta produção (que exige o uso de muita matéria-prima, ou seja, que sejam usados muitos materiais da natureza que é limitada no nosso planeta) e em função do descarte dos objetos temos hoje uma enorme quantidade de lixo gerada no planeta.

Overconsumption, Christopher Dombres

No caso dos espaços, o fato de usarmos menos as ruas, praças, as calçadas da frente das casas, faz com que a cidade se torne menos segura a cada dia. Os espaços pouco utilizados são menos seguros e oferecem mais riscos às pessoas – já dizia Jane Jacobs por volta de 1960, quando ela analisava a vida urbana em busca de uma melhor qualidade de vida para as pessoas nas cidades.

Potenza, Basilicata, Itália

Por isso este apelo ao uso. O uso consciente das coisas e espaços nos traz ao presente, nos aproxima das nossas necessidades, nos mostra os pontos de dificuldade e os benefícios com os materiais e o território onde vivemos. Este uso pode ir ganhando mais frequência e sensibilidade à medida que vamos experimentando aquilo que foi criado para nós: os objetos e as cidades. Afinal, os objetos são para usar e as cidades são para as pessoas.

Links:* Dicionário Michaelis Brasileiro da Língua Portuguesa (disponível no link: http://michaelis.uol.com.br/busca?id=8VQ9 , consultado em 29-10-2018).** Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (disponível no link: https://dicionario.priberam.org/apropria%C3%A7%C3%A3o , consultado em 29-10-2018).

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